Introdução
A Infecção de Corrente Sanguínea (ICS) é uma das principais Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde (IRAS), associada a elevada morbimortalidade, prolongamento da internação e aumento dos custos hospitalares. A prevenção e o tratamento adequados são fundamentais para a segurança do paciente e para a qualidade da assistência em saúde.
Metodologia
Este artigo foi elaborado a partir de revisão narrativa de literatura científica indexada em bases internacionais (PubMed, Scielo, Cochrane), documentos oficiais da ANVISA, CDC (Centers for Disease Control and Prevention) e OMS, além de legislações e regulamentações nacionais e internacionais sobre segurança do paciente e controle de infecções.
Resultados e Discussão
1. Conceito
ICS: presença de microrganismos (bactérias ou fungos) na corrente sanguínea, confirmada por hemocultura.
Pode ser primária (sem foco aparente, geralmente associada a cateteres) ou secundária (decorrente de outro foco infeccioso).
É considerada evento adverso grave pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
2. Fatores de Risco
Uso prolongado de cateter venoso central (CVC).
Inserção em condições não estéreis.
Pacientes imunocomprometidos ou críticos em UTI.
Falhas na higiene das mãos e na troca de curativos.
Uso indiscriminado de antimicrobianos, favorecendo resistência bacteriana.
3. Dados Epidemiológicos
Brasil (ANVISA – PNPCIRAS): monitoramento contínuo em UTIs adultas mostra ICS como uma das principais Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde (IRAS).
Estudo em Maceió/AL: predominância de Staphylococcus coagulase-negativo (51,14%), Staphylococcus aureus (11,21%) e Klebsiella pneumoniae (6,32%).
Estados Unidos: mortalidade atribuível pode superar 10%, chegando a 25% em pacientes de alto risco.
Europa (Suécia, estudo de 14 anos): aumento de casos correlacionado à resistência antimicrobiana, reforçando necessidade de Programas de Stewardship.
| Região/País | Taxa de ICS em UTIs | Mortalidade atribuível | Fonte/Regulamentação |
|---|---|---|---|
| Brasil (ANVISA) | Variável por hospital; ICS entre principais IRAS | ~15% | PNPCIRAS, RDC nº 36/2013 |
| EUA (CDC) | 1,1–2,0 por 1.000 dias de CVC | 10–25% | CDC Guidelines (2021) |
| Europa (Suécia) | Tendência de aumento em 14 anos | 12–20% | ECDC, estudos nacionais |
4. Maiores Ofensores
Gram-positivos: Staphylococcus aureus, Staphylococcus coagulase-negativo.
Gram-negativos: Klebsiella pneumoniae, Pseudomonas aeruginosa.
Fungos: Candida spp. em pacientes imunossuprimidos.
| Categoria | Microrganismos predominantes | Frequência aproximada |
|---|---|---|
| Gram-positivos | Staphylococcus aureus, Staphylococcus coagulase-negativo | 50–60% |
| Gram-negativos | Klebsiella pneumoniae, Pseudomonas aeruginosa, Enterobacter spp. | 20–30% |
| Fungos | Candida spp. | 5–10% |
Medidas de Prevenção
Bundles de prevenção (pacotes de boas práticas):
Higiene rigorosa das mãos.
Uso de barreiras estéreis máximas na inserção.
Antissepsia com clorexidina alcoólica.
Troca regular de curativos.
Educação continuada da equipe multiprofissional.
Checklists de inserção de CVC: comprovadamente reduzem taxas de ICS em países desenvolvidos e são recomendados pela ANVISA.
Monitoramento institucional: auditorias internas e indicadores de adesão.
Tratamento
Retirada do cateter quando possível.
Antibioticoterapia direcionada conforme resultado da hemocultura e perfil de sensibilidade.
Terapia antifúngica em casos de candidemia.
Suporte clínico intensivo em pacientes graves.
Legislação e Regulamentações
Brasil: ANVISA – Programa Nacional de Prevenção e Controle de IRAS (PNPCIRAS); RDC nº 36/2013 (Segurança do Paciente).
Internacional:
CDC (EUA): Guidelines for the Prevention of Intravascular Catheter-Related Infections.
OMS: recomendações globais de segurança do paciente e prevenção de IRAS.
Interpretação
O Brasil apresenta variabilidade significativa nas taxas de ICS, refletindo diferenças estruturais e de adesão às práticas de prevenção.
Nos EUA e Europa, apesar de taxas menores, a mortalidade atribuível continua elevada, reforçando a gravidade da ICS.
Os Gram-positivos são os maiores ofensores, mas o aumento de Gram-negativos multirresistentes e de candidemia exige vigilância constante e protocolos de stewardship antimicrobiano.
Conclusão
Checklist de Prevenção de Infecção de Corrente Sanguínea (ICS)
Antes da Inserção do Cateter
[ ] Higienizar as mãos com técnica correta.
[ ] Utilizar barreiras estéreis máximas (luvas, máscara, gorro, avental estéril, campo estéril amplo).
[ ] Realizar antissepsia da pele com clorexidina alcoólica 2% (preferencial).
[ ] Escolher sítio de inserção com menor risco (evitar veia femoral).
[ ] Confirmar indicação clínica do cateter.
Durante a Inserção
[ ] Manter técnica asséptica rigorosa.
[ ] Utilizar material estéril e descartável.
[ ] Documentar data, hora e profissional responsável pela inserção.
Após Inserção
[ ] Fixar cateter adequadamente para evitar deslocamento.
[ ] Cobrir sítio de inserção com curativo estéril transparente ou gaze estéril.
[ ] Registrar em prontuário o tipo de cateter, número de lúmens e local de inserção.
Manutenção do Cateter
[ ] Higienizar as mãos antes e após manipulação.
[ ] Desinfetar conexões com álcool 70% antes de cada acesso.
[ ] Trocar curativo conforme protocolo institucional (curativo transparente a cada 7 dias ou antes se sujo/úmido).
[ ] Avaliar diariamente a necessidade de manutenção do cateter.
[ ] Retirar cateter assim que não houver indicação clínica.
Monitoramento
[ ] Realizar vigilância ativa de ICS (indicadores de densidade de incidência).
[ ] Notificar eventos ao Núcleo de Segurança do Paciente.
[ ] Participar de treinamentos periódicos sobre prevenção de IRAS.
Referências
AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Medidas de prevenção de infecção de corrente sanguínea associada a cateter venoso central. Brasília: ANVISA, 2017.
AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Programa Nacional de Prevenção e Controle de Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde (PNPCIRAS). Brasília: ANVISA, 2013.
AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Resolução RDC nº 36, de 25 de julho de 2013. Institui ações para a segurança do paciente em serviços de saúde. Diário Oficial da União, Brasília, 26 jul. 2013.
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